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Série de matérias especiais disseca pontos e falhas intrigantes de inquérito



Data de Publicação: 8 de setembro de 2006
 
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Itamargarethe Corrêa Lima
Da Editoria de Polícia


SUICÍDIO OU HOMICÍDIO? - Tentativa de busca da verdade real na morte de Leocádio
Em uma análise minuciosa do inquérito que apurou a morte do prefeito de Buriti Bravo, João Henrique Leocádio, 39, encontrado morto na estrada do povoado Gameleira, que liga a cidade de Buriti Bravo a Caxias, no início da tarde do dia 10 de março do ano passado, detalhes intrigantes serão dissecados em uma série de três matérias especiais, publicadas a partir de hoje no Veja Agora. Entre as provas carreadas no inquérito, concluído mais de um ano e mês depois, informações ditas como “relevantes”, que resultaram no indiciamento do ex-prefeito de Buriti Bravo, Wellighton Coelho, apontado como mandante, Marcos Antônio Alves, o “Marcão”, e Wytamar Costa da Silva, apontados como executores, sendo este último réu confesso, embora sob coação, ameaça de morte e tortura física, serão relatadas.

MARCO ANTÔNIO ALVES – “MARCÃO”
No álibi apresentado pelo indiciado, apontado como executor direto, e que se encontra provado nos autos, às 9h da manhã do dia 10 de março, acompanhado do mototaxista Jonathas Guimarães Nunes, o “Irmão”, “Marcão” deixou o posto Atlanta, de propriedade da família, em direção à cidade de Passagem Franca, onde faria depósitos no Banco do Brasil.

Marcão permaneceu na agência até pouco depois do meio-dia e, em seguida, antes de se dirigir para casa de um tio, onde foi convidado para almoçar, mas recusou, ele teria parado em um bar, perguntado o cardápio do dia e como não se agradou, tomou um refrigerante e saiu.

Em companhia de “Irmão”, por volta das 12h20, ele chegou à churrascaria Picanha do Sul, permanecendo até quase às 13h, quando retornou para Buriti Bravo. Com uma estrada quase intrafegável, Marcão só chegou ao Posto Atlanta por volta das 14h, conforme depoimento dele e de várias testemunhas. Mesmo tendo ficado, segundo relato de familiares, cinco dias algemado, dos quais três sem comer, beber ou ir ao banheiro, com veemência, “Marcão” desde a prisão, ratifica a versão apresentada, ou seja, nega envolvimento no crime.

ÁLIBI CONFIRMADO POR TESTEMUNHAS
A versão apresentada pelo indiciado foi confirmada pelo mototaxista “Irmão”, a comerciante Maria Gisse Viana, onde ele tomou um refrigerante, a garçonete Jordane Negreiros, que o atendeu na churrascaria, assim como Carvílio das Chagas Brito, dono da churrascaria. Ele contou que ao retornar foi avisado pela garçonete da presença de “Marcão”, que esteve no local e almoçou e, antes de sair, perguntou por ele, já que são conhecidos desde 2002.

As provas materiais, como a fita do circuito interno do BB, e os depósitos bancários, assim como testemunhas, através dos depoimentos de quatro pessoas distintas, confirmaram a versão apresentada pelo indiciado; foram insignificantes tanto na conclusão do inquérito policial, que pediu o indiciamento dos ora acusados, bem como na denúncia feita pelo representante do Órgão do Parquet.

MINISTÉRIO PÚBLICO
Não queremos inocentar ou absolver ninguém, até porque esse não é o nosso papel enquanto imprensa, e sim ajudar na busca da verdade e do cumprimento da lei, mas com a ampla defesa e o contraditório, molas mestras do Direito Penal, sendo cumpridos. Além disso, caso exista, queremos cobrar a prisão dos culpados e a punição exemplar deles.

Porém, não poderíamos deixar de cobrar, também, a apuração dos fatos de forma imparcial, para assim evitar que possíveis inocentes possam apodrecer na cadeia. Os fatos acima mencionados não seriam tão intrigantes se no inquérito existisse uma, duas ou três divergências, entretanto, inúmeras foram citadas ao longo da matéria.

Então, para dirimir dúvidas e, conseqüentemente, injustiças, devemos cobrar do MP, com toda sua competência e independência, a busca da verdade, mas não a verdade para poucos e, sim, a verdade real. Com a palavra o Órgão do Parquet.

Após 13 meses de investigação, o inquérito foi concluído com muitas falhas

CONFISSÃO
Para o MP, a confissão de Wytamar foi suficiente, mesmo sendo contrárias, as provas carreadas, ou seja, materiais e testemunhas acima citadas. No depoimento assinado onde Wytamar se auto-incrimina que, em juízo, admitiu ter acontecido mediante tortura física e mental, também existem “verdades”, no mínimo, intrigantes.

A tortura foi denunciada por ele em vários momentos. Primeiro, na acareação feita entre ele e Marcão, diante de inúmeras autoridades, em seguida, em uma carta escrita de próprio punho e, por último, perante o juiz de Buriti Bravo, onde o processo tramita.

No depoimento prestado por Wytamar, ele deu ênfase à caminhonete prata que teria sido usada por “Marcão” para buscá-lo na cidade de Parnarama. Segundo entendimento da polícia e MP, esse veículo seria uma pick-up Frontier, de propriedade do pai de “Marcão”, entretanto, como a caminhonete poderia ser usada se dois dias antes estava em uma oficina mecânica em Caxias?

Além de Edimar Soares da Costa, contratado para deixar o veículo na citada oficina, o proprietário, Gilvan Araújo Souza, confirmou que durante 12 dias a pick-up ficou desmontada. Ele foi ainda mais longe, sugerindo que os funcionários também fossem ouvidos, o que não aconteceu. Mais uma vez, estranhamente, tais depoimentos foram desprezados.

POSIÇÃO GEOGRÁFICA
Outro detalhe importante, infelizmente, também ignorado, é o confronto de informações entre a confissão de Wytamar e as posições geográficas do posto e o local onde o corpo foi encontrado. Para situarmos nossos leitores, Buriti Bravo está encravada no Sertão Maranhense, com três rotas de entrada e saída. Uma na direção de Caxias, outra em Passagem Franca e a terceira dá acesso ao município de Colinas.

O posto onde Marcão foi visto às 14hs, horário que o corpo já havia sido encontrado, localiza-se na estrada de acesso a Passagem Franca, e o corpo foi encontrado na de acesso a Caxias. Pelo horário que saiu de Passagem Franca e o que teria chegado ao posto, seria humanamente impossível, sem o uso de um helicóptero, o percurso ter sido feito em menos tempo, já que estamos falando de 40 km de uma estrada de piçarra.

Mas como estamos analisando todas as possibilidades, admitamos que fosse possível, mas como “Marcão” poderia ter chegado ao povoado Gameleira, sem que as dezenas de pessoas que trabalhavam na ponte, as quais afirmaram ter visto o prefeito passar sozinho de carro, em baixa velocidade, não o visse?

QUESTIONAMENTOS INTRIGANTES
Com base na “confissão” de Wytamar, a polícia concluiu que antes de ir para Passagem Franca, Marcão” o buscou em Parnarama e o deixou escondido dentro do mato. Segundo o réu “confesso”, R$ 20 mil reais foram o valor oferecido para que participasse do crime. O engraçado, é que além de olhar o prefeito chegar, Wytamar ganharia um montante considerável, diga-se de passagem, apenas para ouvir o estopim do disparo e conduzir a moto de volta à cidade de Passagem Franca, onde a caminhonete havia sido deixada.

Porém, já que estamos falando de uma pessoa de alta periculosidade, conforme relatado no inquérito, além de ficar com todo o dinheiro e não ter ninguém para incriminá-lo, Marcão não poderia ter unido o útil ao agradável, e ele mesmo ter conduzido a moto? Além dessa indagação, outros dois questionamentos perturbam a concepção lógica inerente de pessoas, mesmo com pouca inteligência.

Com a ausência de provas materiais e periciais contundentes, por que diante do relato de seis testemunhas, o de uma única pessoa, no caso Wytamar, pode ter fator preponderante sobre os demais? Será que todo o mundo mentiu e apenas ele, que apresenta uma série de informações duvidosas e que já se sabe de que forma foram conseguidas pode ser usado como verdade absoluta?

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